Eu estava destruída e nem tinha acontecido nada de muito grave comigo. A gente tem uma mania de achar que nossos dramas são os dramas mais dramáticos do mundo. Até falarmos sobre eles e poder ver que todo mundo, em maior ou menor grau, já passou ou está passando por questões parecidas.

 

Um relacionamento tóxico e abusivo, a sensação de não ser boa o suficiente em nada, a descrença na própria capacidade de construir algo foda, o dinheiro que nunca sobra, a dificuldade em encontrar satisfação na vida profissional… Não são questões exclusivas, mas podem se tornar impactantes em algum momento da vida.

 

É assim. Pequenas encrencas se transformam na gota d’água. É quando algo que parece bobo se torna forte o suficiente e movimenta uma energia de ação capaz de provocar um furacão nas nossas vidas. 

 

CHEGA! Do dia para a noite começamos a dar um basta em todos os padrões lixos que estamos vivendo repetidas vezes. Você já chegou nisso?

 

Eu decidi deixar de lado as ilusões e passar a aprender a ver a realidade como ela é, sem idealização. O cansaço me levou ao desejo de encontrar autonomia emocional, tranquilidade nos meus pensamentos, leveza nas minhas relações (todas elas). 

 

Eu estava decidida a intensificar o trabalho sujo e doloroso de mergulho nas minhas sombras. 

 

Comecei uma jornada em busca de amor próprio, com a vontade de ficar em paz em minha própria companhia, sem depender de nada, nem de ninguém, de nenhum fator externo. Autorresponsabilidade.

 

Me diz, como é que se faz isso? Qual é o caminho que pode nos conectar com essa fonte de amor e aceitação por ser quem somos? Tem alguma garantia que o resultado será definitivo?

 

Existe muito mais operando em nós do que o que o nosso cabeção consegue identificar. 

 

Comecei por um retiro de conexão com o sagrado feminino com a ferida do antigo relacionamento aberta, sangrando. Meu corpo estava em colapso. Febre, dor de garganta, sinusite, nem voz eu tinha para compartilhar minha dor. Foi no silêncio que comecei meu processo. 

 

Ao longo da jornada pude curar minhas feridas de abuso e agressão, pude honrar minha linhagem feminina. Neste processo intensifiquei a meditação e voltei aos estudos no budismo. E, caramba, fiz silêncio, muito silêncio, observando minhas emoções, meu corpo, minha mente, meu ciclo menstrual. 

Muita coisa deixou de fazer sentido. Muitos assuntos deixaram de fazer parte das minhas conversas, meu corpo começou a gritar por hábitos mais saudáveis. Eu tive medo, senti o pânico, literalmente, deixei de ver o sentido na vida. Mas, cada vez que dava de cara com meu lado mais sombrio eu encarava de frente. 

 

Não é fácil no começo, nem no durante e duvido que tenha um fim. 

 

Mas é tudo muito rico, cheio de descobertas profundas. Muitas pessoas próximas podem estranhar a mudança e podemos até encontrar alguma dificuldade de deixar ir aquilo que não cabe mais. É como se eu estivesse perdendo a única identidade que eu sabia que tinha. Era aquela pessoa de antes que eu reconhecia como sendo eu e, sem essa identidade, eu não fazia ideia de quem eu era, se seria aceita ou amada nesse jeito de pensar, sentir, agir. 

 

A cada sombra que vinha para a consciência, eu via a limpeza acontecendo. E acho curioso que, na mesma proporção que me liberava da dor e do isolamento, eu via as recompensas aparecendo muito rapidamente. Viva! Experimente! Você está um pouco mais pronta!

 

Eu comecei a construir as realidades que desejava.

 

Me mudei da casa dos meus pais como num passe de mágica numa oportunidade maravilhosa; conquistei autonomia financeira a partir de trabalho firme e constante, sempre atraindo os clientes certos no momento ideal; fui à praia 3 vezes no primeiro trimestre e fiz uma viagem internacional desejada mas inesperada; deixei de sentir a necessidade do álcool para me perceber aceita ou fazendo parte de um grupo; e finalizo o ano retomando trabalhos que movem meu coração com a certeza de que eles já deram certo, já estão abundantes para todas as pessoas que cruzarem o meu caminho.

 

Termino o ano grata por todo o contexto de dor que vivi. Reconheço que, por causa da força desses incômodos, que hoje sinto o amor transbordar cada vez mais nas diferentes áreas da minha vida.

 

Não existe um AGORA VAI.

 

Ao longo da vida que segue vamos dar de cara com medos antigos (e medos novos), vamos passar por outras tantas oscilações hormonais que influenciam nossos pensamentos e comportamentos, vamos nos frustrar, nos decepcionar e, muito provavelmente, enroscar, travar, surtar, ter dias de intensa crise e tristeza.

 

É a continuidade de um processo de expansão que é constante e um trabalho delicioso para a vida. Eu prefiro agora seguir construindo meus projetos assim, lidando com a realidade imperfeita do ser humano que sou, deixando de lado a ilusão e com a clareza de que os meus dramas não são os dramas mais dramáticos do mundo. 

 

Começar o ano é só uma continuidade.
Cris Ferrari

Cris Ferrari

Terapeuta holística e Instrutora de práticas corporais e meditativas

Desde pequena observadora. Interessada por tudo que forma o corpo e influencia a atitude. Acredito que nossa realidade é construída de dentro para fora e que na quietude do silêncio nos encontramos com a calmaria da essência da vida.