Quanta irritação eu senti aquele dia. Eu só queria chegar logo na praia, mas tinha que esperar todo mundo se arrumar. “Não faz nenhum sentido tomar banho e secar o cabelo antes de ir para a praia”, pensei. Não consegui disfarçar a minha frustração quando vi nuvens chegando e o tempo fechando. Naquele dia não deu praia e eu fiquei muito irritada. 

 

A simplicidade desse exemplo carrega também um padrão emocional que gera sofrimento, consegue ver? Tem em nós uma necessidade de que as coisas aconteçam no nosso tempo, do nosso jeito e culpamos outras pessoas quando algo sai diferente do roteiro perfeito que criamos na nossa cabeça. 

 

Acontece que culpabilizar o outro não muda em nada o que sentimos aqui dentro. E sabemos disso.

 

Mas a gente não quer se sentir irritado por qualquer bobeira, a gente não quer ficar remoendo coisas ruins que ouvimos, a gente não quer se sentir tão frustrado com o outro e com a vida. Bom, eu não quero. Mais autonomia emocional sempre me pareceu um bom caminho para a liberdade e a leveza da vida.

 

Reconhecer a necessidade de controle parece ser um bom primeiro passo. E é preciso também enxergar o quanto nos enganamos, pensando que agora está tudo sob controle do jeito que gostaríamos. Se nos agarramos nessa falsa ilusão de controle, quando qualquer mudança no roteiro acontece (e é certo que a mudança virá, não negue a impermanência) é drama que vamos vivenciar. 

Mas, se é ele, o controle que aparece no exemplo que abre esse texto, uma das origens de nossos pequenos e grandes sofrimentos, é nele que está o nosso trabalho pessoal. É ele que devemos olhar e não a pessoa que, antes de sair para a praia, precisa toma banho e faz chapinha no cabelo. 

 

Você acredita que é possível transformar a forma que você lida com o que te acontece? Acredita que é possível transformar o controle, o ciúmes, a impaciência, a carência e o apego?

 

A necessidade de controle é um dos exemplos que contribuem para as nossas sofrências. Muitos dizem querer reagir diferente, mas no fundo duvidamos. Ou pior, não queremos largar o prazer de apontar a culpa no outro. E, mesmo quando acreditamos, fazemos muito pouco ou quase nada para a mudança interna, na raiz do sofrimento. Temos pouca consistência, muitos enganos, às vezes apegados na ideia do resultado perfeito ou em soluções mágicas e definitivas.

 

Talvez uma parte de nós acredite que a vida é assim mesmo. “Se fosse tudo leve, se não tivéssemos esses dramas, a vida não teria graça”. Há quem crie conflitos para sacodir o casamento, veja só.

 

E, assim, apegados ao sofrimento e na ideia de que não tem a o que fazer, a gente personifica e assume identidades: “Sou assim mesmo, melhor aceitar”. E então ficamos presos na pessoa ciumenta, agressiva, impaciente, controladora.

 

Te convido a olhar e listar os seus últimos dramas, situações que te trouxeram angústias, frustrações, que foram difíceis de lidar.

 

O que está ou estava por trás deste sofrimento? Qual era a minha necessidade aqui que não tinha sido atendida? Necessidade de afeto e carinho, de valorização, de reconhecimento, de segurança, de controle, de organização, de realização, de grandiosidade?

 

Essas necessidades podem ser uma pista do padrão emocional que normalmente agimos ou reagimos. Orgulho, raiva, medo, apego, competitividade, consumo… Existe no seu repertório de dramas, algo que se repete?

 

Se pergute também: Qual era o engano no qual eu estava agarrado(a)? Que realidade eu estava negando existir ou fingindo não ver e que agora me gera decepção, frustração, tristeza? Será que eu achei que poderia mudar o outro, que aquilo ia durar para sempre, que eu estava imune à mudanças?

 

Se você clicar aqui vai acessar o link de uma música para te ajudar a mergulhar mais fundo dentro de você mesmo. O escuro e o ambiente mais calmo também podem ajudar.

 

Para fazer esse exercício com entrega, você vai precisar querer ver as coisas como elas são, aceitar a natureza humana e se liberar da necessidade de perfeição. Você não é, ninguém é.

Que você possa ver seus enganos, entender onde está se agarrando e compreender o padrão emocional por trás dos sofrimentos.

Cris Ferrari

Cris Ferrari

Terapeuta holística e Instrutora de práticas corporais e meditativas

Desde pequena observadora. Interessada por tudo que forma o corpo e influencia a atitude. Acredito que nossa realidade é construída de dentro para fora e que na quietude do silêncio nos encontramos com a calmaria da essência da vida.